Protocolo de Atendimento no Parto, Puerpério e Abortamento durante a Pandemia da COVID-19 pela FEBRASGO

Protocolo de Atendimento no Parto, Puerpério e Abortamento durante a Pandemia da COVID-19 pela FEBRASGO ( Federação Brasileira das Asssociações de Ginecologia e Obstetrícia). ( revisado)

INTRODUÇÃO

O novo coronavírus (Severe Acute Respiratory Syndrome – Related Coronavirus 2 ou SARS-CoV-2) é um vírus identificado como a causa de um surto de doença respiratória detectado pela primeira vez em dezembro de 2019 em Wuhan, China.

Rapidamente uma doença respiratória grave espalhou-se por todo território chinês e diversos países.

 Em fevereiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) designou a doença como COVID-19, que significa doença de coronavírus 2019. 

Em 11 de março de 2020 a OMS declarou que a disseminação da COVID-19 configurava uma pandemia. 

Em 20 de março de 2020 o Ministério da Saúde reconheceu o estado de transmissão comunitária em todo território nacional.

No Brasil, o número de casos da COVID-19 vem aumentando de forma bastante consistente e até 23/05/2020 foram confirmados 352.523 casos com 22.290 óbitos, sendo que o estado de São Paulo concentra a maioria dos casos da doença e já registrou 76.871 casos com 5.773 óbitos.

As medidas sugeridas neste protocolo visam a redução da transmissão durante a assistência à mulher no parto, puerpério e abortamento por meio da prevenção e controle da infecção causada pelo SARS-CoV-2. 

A COVID-19 tem um espectro clínico bastante amplo, variando de quadros assintomáticos a graves. 

Os casos sintomáticos se caracterizam principalmente pelo aparecimento de fadiga, febre( >37.8 ), tosse seca e dispnéia, mas outros sintomas como anosmia( perda do olfato), congestão conjuntival, escarro, diarreia, dor abdominal, cefaleia e náusea podem estar presentes. Quadros de maior gravidade exibem as características da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

Na gestação, devido às modificações fisiológicas ou a eventos adversos próprios da gravidez, sinais ou sintomas podem se sobrepor aos demais sintomas da COVID-19, dificultando o diagnóstico.

A complicação mais comum da doença é a SRAG, definida por presença de dispneia ou os seguintes sinais de gravidade: •saturação de SpO2 < 95% em ar ambiente

•sinais de desconforto respiratório ou aumento da frequência respiratória

•piora nas condições clínicas de doença de base

•hipotensão em relação à pressão arterial habitual do paciente ou indivíduo de qualquer idade com quadro de insuficiência respiratória.

GRUPO DE RISCO 

Inicialmente o Ministério da Saúde do Brasil (MS) considerou que o grupo de risco para COVID-19 seria composto por indivíduos acima de 60 anos e pacientes com doenças crônicas. Posteriormente, ampliou as condições e fatores de risco a serem considerados para possíveis complicações da síndrome gripal, entre elas, grávidas em qualquer idade gestacional e puérperas até duas semanas após o parto (incluindo as que tiveram aborto ou perda fetal)” , apesar dos escassos dados de literatura não apontarem que a gestação torne a paciente mais susceptível ao novo coronavírus do que a população geral.

Sabe-se que outros coronavírus, causadores de síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS) e síndrome respiratória aguda grave (SARS), podem afetar a gestação, trazendo prejuízos ao desenvolvimento do feto e aumentando a morbimortalidade materna e perinatal.

Considerando as diversas modificações fisiológicas da gestação, pode haver um risco teórico maior de desenvolver a doença grave por COVID-19, em particular pneumonia e insuficiência respiratória.

Em relação à teratogênese, pouco ou nada se sabe sobre as consequências da infecção pelo SARS-CoV-2, especialmente porque a literatura relata casos de mulheres infectadas na segunda metade da gestação. Até o momento, não houve descrição de dismorfologias fetais, assim como não houveram relatos de anomalias congênitas, em doenças como SARS e MERS.

Entretanto, considerando que qualquer infecção grave na gestação pode comprometer a evolução da mesma, principalmente com o aumento do risco de prematuridade, parece adequado o esforço para facilitar o afastamento profissional das gestantes que tiverem atividades de contato com pessoas doentes. As gestantes que são profissionais de saúde, que atuam na assistência às pessoas potencialmente infectadas com SARS-CoV-2 devem procurar o Serviço de Medicina do Trabalho de sua instituição, para avaliação dos riscos, considerando as medidas de distanciamento social.

TRANSMISSÃO

Sabe-se que o contágio da COVID-19 costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, tais como: gotículas de secreção respiratória, saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo (cerca de 2 metros) ou por contato pessoal com superfícies contaminadas, toque ou aperto de mão, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

PERÍODO DE INCUBAÇÃO

Segundo informações do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), o período de incubação da COVID-19 varia entre 2 e 14 dias, com a maioria dos casos ocorrendo em quatro a cinco dias.

IMUNIDADE

Evidências preliminares sugerem que anticorpos induzidos pelos vírus após a infecção são protetores, mas isso ainda precisa ser confirmado por estudos com evidências mais robustas. Além disso, não se sabe se todos os pacientes infectados apresentam uma resposta imune protetora e quanto tempo durará tal efeito.

COMORBIDADES NA GRAVIDEZ E COVID-19

Dado os piores resultados (incluindo mortalidade mais elevada) entre a população com comorbidades (em particular diabetes e/ou hipertensão), é importante considerar o potencial impacto da hiperglicemia e da hipertensão pré-existentes no resultado da COVID-19 em mulheres grávidas. Atualmente, não existem estudos para nos guiar nesse aspecto, mas com base em evidência de mulheres não grávidas, seria lógico supor que em gestantes com comorbidades será maior o risco de manifestações clínicas graves.

APRESENTAÇÃO CLÍNICA

Estudos retrospectivos envolvendo gestantes com COVID-19 demonstram que suas características clínicas são semelhantes às de mulheres adultas não grávidas.

As pacientes podem apresentar febre (com ou sem calafrio), tosse e/ou dificuldade para respirar. Também podem apresentar sinais de síndrome gripal, tais como congestão nasal, coriza, anosmia e mialgia. A ausculta pulmonar pode apresentar estertores inspiratórios, e/ou respiração brônquica em gestantes com pneumonia ou comprometimento pulmonar. Pacientes com dificuldade respiratória podem apresentar taquicardia, taquipneia ou cianose acompanhada de queda na saturação de O2.

Recomenda-se que o exame físico contemple avaliação do padrão respiratório, tosse e/ou dispneia, verificação de temperatura, mensuração da frequência cardíaca, frequência respiratória e oximetria de pulso, ausculta pulmonar cuidadosa e avaliação de sinais de cianose e hipóxia.

Será considerado caso suspeito paciente que apresente:

1.Síndrome Gripal (SG): 

indivíduo com quadro respiratório agudo, caracterizado por sensação febril ou febre, acompanhada de tosse, dor de garganta, coriza ou dificuldade respiratória; na SG é importante destacar que a febre pode não estar presente.

2. Síndrome Respiratória Aguda(SRAG) :

dispneia/desconforto respiratório ou pressão persistente no tórax ou saturação de O2 menor que 95% em ar ambiente ou coloração azulada dos lábios ou rosto.

Será considerado caso confirmado a paciente que apresente:

1. Quadro suspeito de SG ou SRAG com diagnóstico laboratorial por teste de: biologia molecular (RT-PCR Reverse Transcription -Polymerase Chain Reaction, com detecção do vírus causadores de SG e SRAG como SARS-CoV2, Influenza ou Vírus sincicial respiratório) ou Imunológico (teste rápido ou sorologia clássica para detecção de anticorpos, com resultado positivo para anticorpos IgM e/ou IgG em amostra coletada após o sétimo dia de início dos sintomas).

2.Por critério clínico epidemiológico caso suspeito de SG ou SRAG com:histórico de contato próximo ou domiciliar, nos últimos 7 dias antes do aparecimento dos sintomas, com caso confirmado laboratorialmente para COVID-19 e para o qual não foi possível realizar a investigação laboratorial específica.

PROPEDÊUTICA LABORATORIAL

Para a comprovação diagnóstica, o exame de reação em cadeia da polimerase em tempo real para SARS-COV-2 (RT-PCR) utilizando material proveniente de swab nasal ou oral ou aspirado de nasofaringe é o método mais conclusivo até o momento, devendo ser coletado até o 3º e 7º dia do início dos sintomas.

As amostras deverão ser guardadas em geladeira (4 a 8ºC) e deverão ser encaminhadas em até 24 – 48h após a coleta.

As pesquisas de anticorpos, incluindo a imunoglobulina M (IgM) e a imunoglobulina G (IgG), podem permitir a avaliação sorológica. A IgM aparece mais precocemente, podendo ser detectada após 3 a 7 dias do início dos sintomas. Em seguida, as titulações da IgM diminuem, enquanto as de IgG aumentam rapidamente. A titulação da IgG durante a fase de recuperação pode aumentar 4 vezes ou mais em comparação à fase aguda. Nos quadros graves, alguns exames devem ser acrescentados: pesquisa para influenza, oximetria de pulso, gasometria arterial (avaliar presença de hipercarbia ou acidose), tomografia (CT) de tórax, glicemia, ureia e creatinina, bilirrubina total e frações, D-dímero, hemograma, coagulograma (TP e TTPa), marcadores inflamatórios (procalcitonina sérica e/ou proteína C-reativa), troponina sérica e lactato desidrogenase sérica. Aumento da proteína C-reativa e linfopenia evidenciada em hemograma são as alterações mais comuns observadas em exames laboratoriais.

Caso exames de imagem como radiografia e tomografia de tórax sejam considerados necessários, deverão ser realizados prontamente. A radiografia de tórax poderá ser realizada com a proteção abdominal, sem repercussão ao feto. Destaca-se que a radiação emitida durante o Raio-X de tórax (0.0005–0.01 mGy) ou uma TC de tórax (0.01–0.66 mGy) são muito inferiores às doses consideradas teratogênicas. A gestante deve ser orientada sobre os riscos e benefícios do exame. A ultrassonografia pulmonar, quando disponível, pode ser uma alternativa rápida para complementação diagnóstica.

O exame de imagem não deve ser usado como rastreio ou para o diagnóstico inicial por imagem do COVID-19. Seu uso deve ser reservado para pacientes hospitalizados, sintomáticos ou em situações clínicas específicas. As radiografias do tórax tipicamente mostram opacidades de espaço aéreo multifocais de modo similar a outras infecções por influenza, SARS, MERS e H1N1. Os achados da radiografia de tórax são tardios em comparação com a TC de tórax. Na TC, as anormalidades pulmonares na infecção pelo COVID-19 são opacidades com atenuação em vidro-fosco periféricas, focais ou multifocais, e bilaterais, na maioria dos casos. Com a progressão da doença, entre 9 e 13 dias, há o aparecimento de lesões com padrão de pavimentação em mosaico e consolidações.

TRATAMENTO DA COVID-19

Até o momento não dispomos de um tratamento comprovadamente eficaz para a COVID-19 ou que seja específico para gestantes.

Deve-se levar em consideração os diagnósticos diferenciais pertinentes ao caso e o adequado manejo clínico. O fosfato de Oseltamivir tem uso amplamente recomendado na fase inicial das síndromes gripais em gestantes.

A utilização de outros fármacos tem sido aventada no tratamento da COVID-19, como outros antivirais, antibióticos, corticosteroides, soro de pacientes curados, antimaláricos e antiparasitários, porém ainda carece de evidências científicas de boa qualidade para ser realizada na prática clínica. O uso de agentes terapêuticos deve ser feito após análise de risco-benefício individual, considerando o benefício potencial para a mãe e a segurança do feto.

CASOS ASSINTOMÁTICOS

Em pacientes sem sintomas gripais ou respiratórios nos últimos 14 dias, e que não tenham tido contato próximo com pessoas com síndrome gripal ou suspeita de infecção por SARS¬CoV-2 no mesmo prazo, manter os cuidados habituais durante a internação.

CUIDADOS GERAIS COM CASOS SUSPEITOS OU CONFIRMADOS

Em consultas de pronto-atendimento, toda gestante ou parturiente e seu acompanhante devem ser triados para casos suspeitos ou confirmados de COVID-19 logo no início do atendimento.

As pacientes suspeitas ou confirmadas, bem como seu acompanhante, devem imediatamente receber máscara cirúrgica, que deve ser trocada sempre que estiver úmida, orientadas quanto à etiqueta da tosse e higiene das mãos. Além disso, devem permanecer isoladas, com precaução de contato.

Recomenda-se a implementação de precauções padrão aos profissionais para o cuidado de todos os pacientes, com uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) adequados, como máscara cirúrgica, luvas, óculos, protetor facial, gorro e avental. Antes e após o contato com o paciente ou com superfícies próximas a ele, deve-se higienizar as mãos com álcool 70% ou realizar a lavagem das mãos com água e sabão. Durante a realização de procedimentos que produzem aerossóis, a equipe de saúde deve utilizar também as máscaras N95/PFF2, com protetor facial.

Durante o trabalho de parto, deve haver avaliação contínua de saturação de oxigênio (SatO2 por oximetria de pulso) e controle horário de sinais vitais. Caso ocorra piora do quadro, com febre/hipotermia, dispneia, dificuldade para respirar, batimentos de asas de nariz, cianose, tiragens intercostais, frequência respiratória >24 rpm, frequência cardíaca >125 bpm, Sat O2 <95%, hipotensão, oligúria, leucopenia, plaquetopenia, irritabilidade, ou confusão mental, solicitar avaliação da equipe de medicina intensiva e implementar as medidas necessárias de suporte.

LOCAL DO PARTO

Nenhum estudo até o momento demonstrou que parto em ambiente não hospitalar seja mais seguro em decorrência da pandemia. A FEBRASGO reforça que o ambiente hospitalar é o mais adequado para diminuir a morbimortalidade materna e perinatal, inclusive em gestantes assintomáticas e de risco habitual. As maternidades e hospitais adotam normas de segurança e cuidados específicos para redução do risco de transmissão de doenças. É importante salientar que pacientes suspeitas ou confirmadas para COVID-19 devem ser internadas em hospitais de referência, com maior nível de complexidade para os eventuais casos de descompensações materna e/ou fetais. Não se recomenda o parto de mulheres suspeitas ou confirmadas para Covid-19 em domicílios ou em Centros de Parto Normal (CPN).

PRESENÇA DE ACOMPANHANTES, VISITANTES E DOULAS

O objetivo é diminuir ao máximo o número de pessoas circulando em ambiente hospitalar. A presença de acompanhante será permitida conforme regras de cada instituição, sendo recomendável que seja no máximo um por paciente durante toda internação, com idade entre 18 e 59 anos, sem sintomas gripais e nem contato com indivíduos com sintomas gripais nos últimos 14 dias que antecedem a internação, residir no mesmo domicílio que a parturiente e não possuir doenças crônicas. O acompanhante deve utilizar máscara cirúrgica e orientado quanto aos cuidados gerais de contato e higienização.

Devido ao isolamento social preconizado, não é recomendada a presença de doulas, fotógrafos e visitantes durante a internação hospitalar, pois o aumento do número de pessoas circulando aumenta os riscos de contaminação dessas pessoas, de pacientes internadas e da equipe de saúde.

MOMENTO E VIA DO PARTO

O momento e a via de parto, na maioria dos casos, não devem ser determinados pela infecção materna por SARS-CoV-19. É necessária uma avaliação multidisciplinar, considerando estado geral da paciente, idade gestacional e vitalidade fetal. Para as mulheres com suspeita ou confirmação de COVID-19 no início da gravidez que se recuperam, nenhuma alteração na idade gestacional de resolução é recomendada. Para mulheres com suspeita ou confirmação de COVID-19 no terceiro trimestre que ainda não se recuperaram, é razoável tentar adiar o parto (se condições maternas e fetais permitirem) até que um resultado negativo seja obtido na tentativa de evitar a transmissão para o neonato. Em geral, a infecção por COVID-19 não é uma indicação para o parto, entretanto, deve ser antecipado no caso de gestantes que evoluam com sintomas graves ou críticos. Em gestantes com boas condições clínicas, sintomas leves e feto com boa vitalidade, o parto vaginal é seguro e recomendável.

TRANSMISSÃO VERTICAL

Há poucos dados na literatura para afastar com segurança a possibilidade de transmissão vertical do SARS-Cov-19. Em casos documentados de recém-nascidos (RN) infectados não ficou claro se a transmissão foi transplacentária ou pós-natal. Novas evidências sugerem que a transmissão vertical seja provável, embora a proporção de gestantes afetadas e o significado para o RN ainda não seja claro. Dois relatórios publicaram evidências de IgM para SARS-COV-2 no soro neonatal ao nascimento. Sabe-se que a infecção perinatal pode causar efeitos deletérios ao concepto como parto pré-termo, distúrbios de oxigenação fetal, desconforto respiratório agudo, trombocitopenia acompanhada de distúrbios da função hepática e óbito.

Esse risco perinatal parece ser independentemente da via de parto. Até o momento, os estudos não demonstraram presença do vírus em leite materno e líquido amniótico, mas demonstraram sua presença em fezes, sangue e urina materna.

INDUÇÃO DO PARTO

A indução do parto pode ser realizada quando a gestante estiver em boas condições clínicas. No período da pandemia sugere-se diminuir o período de internação hospitalar, podendo ser oferecida a associação de métodos de indução, como o método mecânico e ocitocina, para pacientes com cesárea anterior e método de mecânico e misoprostol, nas pacientes sem cesárea prévia.

O PARTO OPERATÓRIO

O parto vaginal operatório não é indicado para a parturiente apenas devido à suspeita ou confirmação de COVID-19. Por outro lado, os dados disponíveis não são suficientes para contraindicá-lo caso haja necessidade de ultimar o parto por esse meio.

MONITORIZAÇÃO DO TRABALHO DE PARTO

Seguir vigilância rigorosa, com ausculta intermitente dos batimentos cardíacos fetais. Realizar a Cardiotocografia quando necessária e disponível.

Alterações no padrão da frequência cardíaca fetal podem ser um indicador precoce da piora da condição respiratória materna.

ANALGESIA E ANESTESIA DE PARTO

A analgesia axial deve ser oferecida quando o médico assistente julgar adequado e for desejo da paciente. Não há evidências de aumento do risco de transmissão do vírus com anestesia ou analgesia raquidiana e/ou peridural. No entanto, deve-se evitar a anestesia geral já que a intubação gera aerossóis que aumentam o risco de contaminação da equipe. A analgesia farmacológica parenteral pode ser utilizada, tendo cuidado com o uso de medicações potencialmente depressoras do centro respiratório.

Métodos não farmacológicos de alívio da dor devem ser ofertados, mas com cuidado para que eles não sejam compartilhados com outras pacientes.

O parto na água não deve ser realizado, pois já foi documentada a presença do SARS-CoV2 em fezes, sangue e urina. Já o banho de aspersão (chuveiro) é recomendável para higiene, alívio da dor e relaxamento.

MANOBRAS DE RESSUSCITAÇÃO FETAL INTRA ÚTERO

Embora o oxigênio via cânula nasal não seja um procedimento de aerossol, o fato de cânula/máscara facial estarem em contato com o trato respiratório materno, o manuseio do equipamento (ligar/desligar/ajustar) aumenta a chance de contaminação da equipe.

Considerando o grande número de portadores assintomáticos e que os benefícios e possíveis danos da oxigenoterapia são controversos, especialmente quando a parturiente não é hipoxêmica, deve-se analisar criteriosamente a necessidade de oxigênio inalatório para ressuscitação fetal. Demais práticas que melhoram a perfusão uteroplacentária e a oxigenação fetal podem e devem ser realizadas.

CLAMPEAMENTO OPORTUNO DO CORDÃO

A maioria dos estudos não demonstrou a presença de SARS-CoV-2 no sangue do cordão umbilical, tanto no parto normal quanto em cesáreas. Logo, orientamos aguardar de 1 a 3 minutos para o clampeamento, uma vez que não haveria maior risco de transmissão vertical, frente aos dados atuais.

PELE À PELE

Não é recomendado o contato pele a pele em pacientes com COVID-19, pois pode haver um contato importante do RN com secreções maternas. O neonato não deve ser posicionado no abdome ou tórax materno. Estudos já demonstraram a presença do RNA da SARS-CoV-2 em amostras de sangue, urina e fezes. Por esse motivo é recomendável a secagem e aquecimento do RN seguidas pelo banho.

CONSIDERAÇÕES SOBRE MEDICAÇÕES DURANTE A GESTAÇÃO

Vale destacar alguns aspectos de medicações frequentemente utilizadas durante assistência obstétrica:

1. Tocolíticos:

Em mulheres com suspeita ou confirmação de COVID-19, os tocolíticos de escolha são nifedipina ou atosibano. A opção por indicar a tocólise deve ser individualizada conforme quadro clínico da gestante, idade gestacional e viabilidade fetal. Os demais tocolíticos estão contraindicados, pelos potenciais efeitos colaterais.

2. Ácido acetilsalicílico profilático:

Devido à elevada prevalência de pré-eclâmpsia em nossa população e a redução de seu risco com o uso de baixa dose de aspirina durante a gravidez, tal medicação pode continuar a ser utilizada em pacientes com suspeita ou confirmação de COVID-19.

3. Corticosteroides:

Os benefícios do uso de corticosteroides para maturação pulmonar, em fetos entre 24 e 34 semanas, com risco de parto pré-termo dentro de 7 dias, são bem estabelecidos e resultam em redução importante da morbimortalidade neonatal. Portanto, nessas situações devem continuar a ser administrados. Modificações no atendimento a essas pacientes podem ser individualizadas, pesando os riscos eventuais à gestante e benefícios neonatais. Os efeitos da administração de corticosteroides para profilaxia de complicações na prematuridade tardia ainda não estão bem estabelecidos e não devem ser utilizados em pacientes com suspeita ou confirmação de COVID-19.

4.Profilaxia para estreptococo do grupo B:

A coleta do swab para pesquisa do estreptococo do grupo B deve ocorrer conforme indicado durante o período habitualmente recomendado, de 35 a 37 semanas de idade gestacional. O uso de antibiótico profilático para diminuição do risco de sepse neonatal segue conforme as orientações da FEBRASGO.

5. Sulfato de Magnésio:

O sulfato de magnésio deve ser usado conforme suas indicações habituais na presença de hipertensão grave e como forma de profilaxia da eclâmpsia. Seu uso para neuroproteção do recém-nascido na prematuridade extrema (parto abaixo de 32 semanas) também segue conforme orientações da FEBRASGO. Não há dados relatados sobre o impacto do sulfato de magnésio sobre a COVID-19. No entanto, dadas as possíveis complicações respiratórias com o uso de sulfato de magnésio, este deve ser efetuado criteriosamente nos casos com sintomas respiratórios graves. A equipe de saúde deve estar atenta aos sinais de intoxicação e manter vigilância rigorosa.

6.Heparina profilática:

Evidências sugerem a ocorrência de trombose microvascular em pacientes gravemente doentes com COVID-19, embora um aumento na incidência de trombose de grandes vasos não foi demonstrado. A profilaxia para tromboembolismo venoso geralmente é indicada em pacientes graves internadas. 

Para gestante com COVID-19 e com outros fatores de risco para eventos tromboembólicos já conhecidos é recomendável utilizar heparina em dose profilática, dentro dos protocolos já estabelecidos.

AMAMENTAÇÃO

Considerando os inúmeros benefícios da amamentação e a ausência, até o momento, de transmissão do SARS-CoV-2 por essa via, recomendamos o início e a manutenção do aleitamento materno, desde que a paciente esteja em boas condições clínicas. Ressalta-se que precauções deverão ser adotadas: higienização correta das mãos, o uso de máscara cirúrgica pela lactante durante todo o tempo, evitando falar e lavagem das mãos entre as mamadas. Caso a mãe esteja em UTI e deseje amamentar, recomenda-se que o seu leite seja extraído e ofertado ao RN. Em caso de condições maternas graves, cuidado deve ser tomado para que não haja ingurgitamento mamário. Se necessárias, ordenhas devem ser realizadas.

CUIDADOS NO ALOJAMENTO CONJUNTO E ALTA HOSPITALAR

Salvo alguma intercorrência, como o agravamento das condições de saúde maternas, é perfeitamente possível que mãe e filho permaneçam em sistema de alojamento conjunto até a alta hospitalar. Mas, diversos cuidados devem ser estabelecidos.

A paciente com síndrome gripal e/ou COVID-19 suspeita ou confirmada deverá permanecer em leito isolado, em distância de pelo menos 2 metros do berço, o tempo todo de máscara cirúrgica, que deve ser trocada a cada duas horas e sempre que umedecer, lavar as mãos com frequência e sempre antes de tocar o RN. É importante que no local não sejam realizados procedimentos geradores de aerossol, que aumenta o risco de contaminação. A alta hospitalar deve ser o mais precoce possível, respeitando as condições clínicas do RN e da puérpera, podendo ser em 24 horas para parto vaginal e 48 horas para cesariana.

ABORTO

Os casos devem ser cuidadosamente analisados e individualizados para que a paciente não corra riscos desnecessários ao ter seu tratamento postergado, mas também tenha a menor exposição possível ao ambiente hospitalar. Em pacientes assintomáticas com aborto retido a conduta expectante pode ser oferecida, por até 4 semanas, caso a paciente consinta e compreenda os riscos e benefícios envolvidos.

Quando necessários os procedimentos de aspiração intra-útero ou curetagem devem ser realizados, sendo que a alta deverá ser o mais precoce possível.

Considerando a vacina para o enfrentamento da pandemia pelo SARS-CoV-2 ela está um pouco distante para a emergência que vivemos neste momento. Parece ser uma alternativa factível para o futuro, mas o mundo não dispõe do tempo que esta estratégia demanda para ser efetivada.