O que está acontecendo com a sociedade?
Casos de violência extrema envolvendo adolescentes chocam o mundo.
Filhos matam pais, colegas de escola se tornam agressores e, em meio a isso, pais e educadores tentam entender os fatores que contribuem para essa crise.
A recente minissérie “Adolescência”, da Netflix, tornou-se um dos conteúdos mais assistidos globalmente e tem gerado intensos debates.
Com quatro episódios de cerca de 60 minutos cada, a série não é baseada em um evento específico, mas inspirada em vários casos reais de violência juvenil ocorridos nos Estados Unidos.
O enredo acompanha a investigação de um adolescente de 13 anos acusado de assassinar uma colega de escola e analisa os fatores que podem ter levado a esse desfecho trágico.
A adolescência é historicamente um período desafiador, tanto para os jovens quanto para seus pais.
No entanto, o acesso irrestrito à internet e a exposição a discursos extremistas tornaram essa fase ainda mais complexa.
Os perigos da influência digital
Um dos pontos levantados pela série é o desconhecimento dos pais e da sociedade sobre as interações e os códigos utilizados pelos adolescentes no ambiente virtual. Muitas vezes, elementos aparentemente inofensivos escondem mensagens perturbadoras.
Códigos e símbolos ocultos
A série destaca como certos emojis são usados para propagar ideias radicais ou como forma de identificação dentro de comunidades online. Eis alguns exemplos:
•🫘Incels (Involuntary Celibates): Homens que se consideram incapazes de ter relações amorosas e culpam as mulheres por isso.
•💊Red Pills (“Pílula Vermelha”): Comunidade masculina que acredita que a sociedade foi distorcida pela predominância feminina.
•Manosfera: Espaço online onde discursos misóginos são propagados.
* Coração roxo (💜 ): Simboliza desejo sexual.
* Coração amarelo (💛 ): Indica interesse.
* Coração rosa (🩷 ): Mostra interesse, mas sem conotação sexual.
* Coração laranja (🧡 ): Representa conforto e apoio emocional, sugerindo que “vai ficar tudo bem”.
* 100 : Relacionado à regra “80/20” reforçando a ideia de que os homens precisam “enganar” para atrair uma mulher.
•💣 (Dinamite): Representa a “pílula vermelha explodindo”, um símbolo da comunidade incel.
•❤️ (Coração vermelho): Pode estar associado ao uso de ecstasy.
•🫘 (Feijão): Símbolo usado por incels.
•🍆(Beringela) e 🌺 (Flor): Representações de órgãos sexuais.
•🍭 (Pirulito): Ligado a conteúdo pedófilo, referência ao livro Lolita.
•🍀(Trevo de quatro folhas): Associado ao consumo de cannabis.
•⛄️ (boneco de neve): Pode ser um código para cocaína.
E há símbolos usados por traficantes: o maço de notas, a coroa de rei, ou a cara com cifrões nos olhos e na língua.
Além disso, a série aborda a crescente presença de ideologias perigosas em fóruns online, especialmente entre os jovens que buscam pertencer a um grupo.
O impacto do isolamento e do cyberbullying
A pandemia de COVID-19 acentuou o isolamento social e fez com que os adolescentes passassem ainda mais tempo online.
Esse fenômeno resultou em um aumento significativo do cyberbullying, conforme uma pesquisa de 2022 da Scientific Reports.
Para muitos jovens, as redes sociais se tornaram o principal espaço de interação, o que intensificou sentimentos de solidão, ansiedade e depressão.
Muitos pais não percebem a extensão desses impactos ou os riscos associados a determinadas comunidades online.
O desafio da educação digital
Se antes a preocupação dos pais era garantir a segurança física dos filhos, hoje é preciso proteger também suas mentes.
A falta de diálogo e monitoramento pode levar adolescentes a desenvolverem comportamentos problemáticos sem que os pais percebam.
Por outro lado, o equilíbrio entre privacidade e proteção é um desafio constante.
Algumas estratégias para os pais:
•Acompanhar o conteúdo consumido pelos filhos, sem invadir sua privacidade.
•Incentivar o diálogo sobre temas delicados, como bullying, redes sociais e segurança online.
•Conhecer os códigos e linguagens utilizados nas redes sociais.
•Monitorar sinais de comportamento extremista ou depressão.
O mundo mudou, e com ele os desafios da educação. O que antes era apenas uma preocupação com a segurança física dos filhos, agora exige um olhar atento para seu desenvolvimento emocional e digital.
Estar presente, informado e disposto a dialogar pode ser a chave para proteger os jovens das influências nocivas do mundo virtual.
Dra Amira Hazime
Ginecologista e Obstetra
CRM 66263 | RQE 37162