Todos os anos, quando chega outubro, o rosa toma conta das ruas, das vitrines, das redes sociais e dos consultórios.
Mas você já parou para pensar o que existe por trás daquele pequeno laço rosa?
Antes de ser rosa, ele era cor de pêssego.
E essa história começou com uma mulher chamada Charlotte Haley, nos Estados Unidos.
Antes do rosa, havia o pêssego
No início dos anos 1990, Charlotte Haley começou a confeccionar pequenos laços cor de pêssego à mão e a distribuí-los, acompanhados de uma mensagem que chamava a atenção para a necessidade de maior investimento na prevenção do câncer de mama.
A iniciativa ganhou visibilidade e, em 1992, o laço rosa começou a ser difundido como símbolo da conscientização sobre o câncer de mama. (National Breast Cancer Foundation)
O símbolo mudou de cor.
Mas a mensagem permaneceu.
E talvez seja justamente isso que eu gostaria de resgatar neste Outubro Rosa:
não olhar apenas para o laço, mas para a mulher que existe por trás dele.
Por trás de cada laço existe uma história
Uma mãe.
Uma filha.
Uma irmã.
Uma amiga.
Uma mulher que trabalha, cuida da família, faz planos, se apaixona, envelhece, recomeça.
E que merece ter acesso à informação, ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado.
O câncer de mama continua sendo um dos grandes desafios da saúde da mulher. Para o Brasil, o INCA estima 78.610 novos casos por ano no triênio 2026–2028.
São números importantes.
Mas números não contam histórias.
Cada diagnóstico representa uma mulher e, muitas vezes, uma família inteira que passa a viver uma nova realidade.
É por isso que informação importa.
Conhecer as próprias mamas também é uma forma de cuidado
Existe uma diferença importante entre conhecer o próprio corpo e transformar o autocuidado em uma obrigação mecânica.
Hoje, o INCA não recomenda que a mulher siga uma técnica rígida de autoexame das mamas ou uma periodicidade mensal fixa.
A orientação é que ela esteja consciente das suas mamas, observe e palpe quando se sentir confortável (no banho, ao trocar de roupa ou em outros momentos do cotidiano) e procure avaliação médica caso perceba alguma alteração diferente do seu padrão habitual.
E quais alterações merecem atenção?
Entre os sinais que devem ser investigados estão:
- nódulo endurecido, fixo ou que esteja aumentando de tamanho;
- saída espontânea de secreção pelo mamilo, especialmente quando é sanguinolenta e de um único lado;
- retração da pele da mama;
- mudança no formato ou retração do mamilo;
- aumento progressivo da mama;
- pele com aspecto de “casca de laranja”;
- alterações na pele que não melhoram com tratamentos habituais;
- presença de nódulos endurecidos na região das axilas ou do pescoço.
É importante lembrar:
uma alteração na mama não significa necessariamente câncer.
Mas significa que merece ser avaliada.
O objetivo não é viver com medo.
É não ignorar o próprio corpo.
E a mamografia?
A mamografia continua sendo uma ferramenta fundamental para a detecção precoce do câncer de mama.
Mas é importante saber que as recomendações de rastreamento podem mudar com o avanço do conhecimento científico.
Atualmente, no Brasil, o Ministério da Saúde prioriza o rastreamento mamográfico para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos. Mulheres entre 40 e 49 anos e acima de 74 anos que desejarem realizar a mamografia podem fazê-lo após uma conversa individualizada com um profissional de saúde sobre benefícios e possíveis riscos, como resultados falso-positivos, exames desnecessários e sobrediagnóstico.
E existe uma diferença importante entre rastreamento e investigação diagnóstica.
Uma mulher que apresenta um sinal ou sintoma suspeito não deve simplesmente esperar o próximo exame de rotina.
Nessas situações, a investigação precisa ser individualizada.
Quando um exame normal não encerra a investigação
Essa é uma questão que considero especialmente importante na minha prática.
Já acompanhei pacientes em que a mamografia não mostrou uma alteração que, diante da avaliação clínica e do contexto daquela mulher, precisava continuar sendo investigada.
Em uma dessas situações, insisti na realização de uma ressonância magnética, mesmo diante da resistência da paciente, que acreditava que não havia motivo para fazer outro exame porque “a mamografia não tinha mostrado nada”.
Ela fez.
E a investigação revelou um câncer de mama.
Hoje, felizmente, ela está curada.
Conto essa história não para dizer que toda mulher precisa fazer uma ressonância magnética.
Não precisa.
A ressonância é um exame complementar indicado em situações específicas, de acordo com o risco individual, os achados clínicos e os resultados dos outros exames.
O que essa experiência me ensinou (e reforçou algo em que acredito profundamente) é que um exame normal precisa ser interpretado dentro do contexto de cada mulher.
Medicina não é apenas olhar para um resultado.
É olhar para a mulher inteira.
Outubro Rosa também é sobre estar ao lado
Existe outro aspecto dessa campanha que considero tão importante quanto a prevenção e o diagnóstico:
ninguém deveria atravessar um diagnóstico de câncer sozinha.
Às vezes, o que uma mulher precisa naquele momento não é de uma grande solução.
É de alguém que diga:
“Eu vou com você.”
Uma filha que acompanha a mãe à consulta.
Uma irmã que lembra do exame.
Uma amiga que liga depois do resultado.
Um companheiro que permanece presente.
Alguém que escuta sem minimizar o medo.
Porque informação é uma forma de cuidado.
Mas presença também é.
Neste Outubro Rosa, vá além do laço
Eu gosto do símbolo do laço rosa.
Ele é delicado, reconhecível e carrega uma história de conscientização que atravessou décadas.
Mas gostaria que, neste Outubro Rosa, ele significasse um pouco mais.
Que fosse um lembrete para olhar para a própria saúde.
Para conhecer o próprio corpo.
Para manter o acompanhamento adequado.
Para não ignorar uma alteração.
Para conversar com seu médico sobre qual é a estratégia de rastreamento mais adequada para você.
E também para olhar para o lado.
Talvez exista uma mulher próxima a você que esteja adiando uma consulta.
Talvez alguém esteja enfrentando um diagnóstico e precise de companhia.
Talvez uma simples mensagem sua seja o incentivo que faltava para ela procurar ajuda.
Então, neste Outubro Rosa, não compartilhe apenas um laço. Compartilhe informação.
Converse.
Pergunte.
Escute.
Acompanhe.
Cuide.
Porque, no fim, o laço é rosa.
Mas a história por trás dele é de todas nós.
“Medicina não é apenas olhar para um resultado.
É olhar para a mulher inteira.”
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação médica individualizada.
Dra Amira Hazime
Ginecologista e Obstetra
CRM 66263 | RQE 37162